sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Singularidades de uma rapariga loira

Autor: Eça de Queirós
Páginas: 56
Preço: 4,46€
Editora: Sopa de letras

Esta é a história do amor de um jovem honesto e trabalhador, Macário, por Luísa, uma rapariga loira de carácter loiro como o cabelo - se é certo que o loiro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo "pois sim"; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências. Macário apaixona-se por essa rapariga aparentemente dócil, etérea e sim vontade própria, a ponto de sair de casa do tio Francisco, para quem trabalhava como escriturário, e ir até Cabo Verde em negócios, só para merecer casar com ela. No entanto, Luísa é de facto uma rapariga loira e singular...





Citações
"Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia decerto no destino daquele velho uma mulher."

"Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem."

"Mas apareceram uns cabelos loiros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um lápis."

"Macário veio à janela e viu-as atravessar a rua, e entrarem no armazém. No seu armazém!

Excerto
Começou por me dizer que o seu caso era simples – e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma
calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos,
com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e
rectidão – por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo
saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco
comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa
abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo – saíam as pregas moles de uma
camisa bordada.
Era isto em Setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma
escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando, num cobrejão de
listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os
céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar
monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem
descarpada e chata, sob o côncavo silêncio nocturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as
alturas – o facto é – que eu, que sou naturalmente positivo e realista – tinha vindo tiranizado, pela
imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é certo – tão friamente educados
que sejamos –, um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um
cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar – para que esse fundo místico
suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais
matemático, ou o mais crítico – tão triste, tão visionário, tão idealista –, como um velho monge
poeta . A mim, o que me lançara na quimera e no sonho, fora o aspecto do Mosteiro de Rostelo, que
eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia,
a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro,
com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava no seu cachimbo – eu pus-me elegiacamente,
ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento,
tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca
canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a Imitação, e ouvindo os rouxinóis nos loureirais ter
saudades do Céu. – Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição
visionária a falta de espírito – a sensação – que fez a história daquele homem dos canhões de
veludilho. A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogada
em arroz branco, com fatias escarlates de paio – e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia
espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava
defronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu
guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos – se ele era de Vila Real.
– Vivo lá. Há muitos anos, disse-me ele.
– Terra de mulheres bonitas, segundo me consta, disse eu.
O homem calou-se.
– Hein?, tornei.
O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente, loquaz,
e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.
Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia decerto no destino daquele
velho uma mulher. Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabelecimento na ideia de que o facto, o caso daquele homem, devera ser grotesco, e exalar escárnio.
De sorte que lhe disse:
– A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para
olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os
cabelos claros cor de trigo.
O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.
– Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante – e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um
amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loira, bacharel.
– O Peixoto, sim, disse-me ele, olhando gravemente para mim.
– Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia – questão de arranjar a finaflor
da perfeição. – À sua saúde.
Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu
reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de coiro. E saiu.
4*

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